Sobre Expresso! no Evento “Space Blooks”
Posted in Expresso!, Literatura, Mangá, Quadrinhos, steampunk on maio 22nd, 2010 and
Eu sei que tenho demorado muito a atualizar esse blog. Tenho tido bons motivos para isso: estou desenhando e preparando o projeto editorial em que Expresso! estará inserido. Por isso mesmo eu tenho apresentado poucas coisas: entre desenhar uma página ou uma ilustração que eu possa mostrar aqui, tenho dado preferência a produzir páginas. E eu tenho evitado sair mostrando o que faço – porque senão, como é que eu vou surpreender meus leitores quando sair da toca?
Mas esse é um caso especial. Nessa quinta-feira, eu fui um dos convidados para o evento Space Blooks, na simpática livraria Blooks em Botafogo, na mesma galeria do Unibanco Arteplex. O tema seria Steampunk, e eu participaria de uma mesa-redonda com o escritor Gerson Lodi-Ribeiro, autor de ficção científica, responsável pelo contexto ficcional do MMORPG Taikodom, e com um livro novo do gênero na praça (Xochiquetzal – Uma Princesa Asteca entre os Incas, publicado pela editora Draco); e Fausto Fawcett, que é muito mais do que um cantor cercado de louras rebolantes, como deve ter sido a percepção de sua carreira pelo público nos anos noventa. Fausto é uma máquina de reprocessamento de referências culturais – e foi um dos meus ídolos de adolescência, admito. Ainda guardo o vinil do seu primeiro disco com os Robôs Efêmeros, e o considero o trabalho de ficção científica brasileira mais importante dos anos oitenta, sem brincadeira.
Foi uma experiência interessante. Falou-se de muitas coisas – do que é Steampunk, da percepção distópica do gênero nos Estados Unidos, da vindoura antologia de novelas do gênero organizada por Lodi-Ribeiro (que se chamará Vaporpunk e que reunirá autores tanto do Brasil quanto de Portugal)… Fausto apontava o Steampunk como uma resultante da saturação do presente e da busca de múltiplas subculturas, do aproveitamento e absorção de várias épocas em meio a uma pulverização de opções. Confesso que eu tendo a ser desviado, quando estou em multidões, pelas próprias multidões em si – eu presto atenção no que está sendo dito, mas também procuro olhar para as reações das pessoas na platéia às palavras proferidas.
Um dos elementos curiosos mencionados por Lodi-Ribeiro foi justamente a ausência das menções ao colonialismo e a visão profundamente europeizada do Steampunk nos materiais americanos – que provavelmente sentem uma profunda falta de uma realeza em sua história e tendem a glamourizar as ambientações monárquicas. E isso acaba indo contra boa parte da produção mais popular do século XIX e começo do XX, que mostravam aventureiros viajando para a África e América Latina – sem respeitar fronteira nenhuma, bem de acordo com o conceito do Destino Manifesto, que fez estrago e se faz sentir na atitude americana até hoje (acabei citando o Mil Milhas por Hora de Herbert Strang).
Tive oportunidade de falar um pouco sobre minha história. E isso levantou dois pontos em especial que eu gostaria de recordar.
Vivemos em uma sociedade na qual somos enquadrados desde que nascemos; somos ensinados a nos mediocrizar. Eu tomei como ponto de partida, para minha série, um evento literário: o livro Steam Man of the Prairies de Edward S. Ellis (aliás, as revistas juvenis do século passado foram um manancial imenso para Expresso!). Poucas coisas são mais simbólicas do que um garoto anão e corcunda, vivendo na pobreza, construindo por conta própria um robô a vapor para buscar um tesouro.
Claro que Expresso! é antes de mais nada uma história de entretenimento. Não quero ficar passando sermão a ninguém – isso tornaria tudo muito, muito chato. No entanto, proatividade é um conceito muito importante para minha história e não é a toa que eu citei, na “capa” do biombo em que expus algumas páginas, duas citações: uma de Marinetti e outra, no segundo biombo, de Goethe (”… no princípio era a Ação!”). Não porque eu queira realmente trazer respeitabilidade haute-couture para minhas obras. Quem se sustenta não precisa de muletas. Mas eu acho que poucas vezes esse sentimento de iniciativa foi tão bem traduzido em palavras. Eu tive que recordar isso.
Expresso! acaba sendo realmente sobre a iniciativa própria e a força transformadora do indivíduo, a medida em que se trabalha com algum subtom confrontacional. Somos ensinados a nos adequar, e temos personagens que querem reescrever as regras do mundo. E quem ganha com a mediocrização – ou, pior ainda, aqueles para quem a proatividade incomoda porque levanta a bola da sua própria mediocridade por comparação – tende a reagir imediatamente.
Não vou negar que esse é um dos grandes temas da história. No fundo, usamos o passado para falarmos sobre o que acontece no presente. E isso não é muito difícil quando o cenário é o começo do Século XX: essencialmente o mundo como conhecemos começou ali. A aparelhagem começou a se relacionar com a vida do cidadão comum naquele momento. Empresas como a Ford e a General Electric surgiram dentro desse contexto. Lâmpadas, gramofones, rádios de galena… A tecnologia foi levada para dentro de casa. E tecnologia é poder, não esqueçam.
O outro ponto que toquei foi a natureza dos mangás como a linguagem folhetinesca por excelência de nosso tempo – os herdeiros de uma linguagem de literatura de massa que tiveram seu expoente maior na figura de Alexandre Dumas, no século XIX. Os velhos folhetins estabeleceram a fórmula editorial básica de serialização em veículos de massa para posterior compilação no ano de 1836, em jornais como o La Presse e o Le Siècle, introduzindo o conceito de obra aberta na indústria cultural: autores bem-sucedidos como Dumas precisavam da colaboração de diversos assistentes, para manter os prazos apertados exigidos pelos jornais (e ele produzia várias séries em diferentes publicações ao mesmo tempo). Os rumos de suas histórias eram determinados pela reação dos leitores, cujo termômetro eram as cartas enviadas para a redação dos jornais, e a população simplesmente parava o país ao acompanhar os dramas de personagens como Edmond Dantes ou D’Artagnan.
Para os leitores de quadrinhos japoneses: isso não é familiar?
No evento, levei dez páginas para apreciação dos visitantes. Infelizmente, por problemas técnicos de montagem, só pude deixar cinco em circulação. E eu acho que seria imensamente injusto mostrar as páginas – que na verdade são as versões refeitas das primeiras versões de minha história – sem mostrá-las aos meus leitores fiéis. Então eu estou aproveitando e mostrando a vocês as primeiras quatro páginas da história, exibidas no evento para aqueles que as quisessem ver. Quem viu a primeira versão dessas páginas vai ver que muitos quadros foram reaproveitados, mas o fundamental é que o material tenha qualidade para o leitor.
Divirtam-se.












Acabei deixando de lado as aventuras clássicas de Adriano quando veio a adolescência e os super-heróis – que acabaram me estimulando a pegar no lápis e fazer minhas próprias histórias em definitivo. E por muito tempo pensei que meu destino criativo era fazer super-heróis. Obviamente eu era um adolescente que não sabia nada da vida. Mas acabei sendo salvo: eu estava estudando Desenho de Artes Gráficas no Senai/RJ e passei a ter acesso imediato a duas gibiterias: a Gotham City (que não existe mais, e em que eu passava horas e horas conversando fiado) e a Gibiteria e Bárbaras Magias, que na época permanecia solidamente no edifício Av. Central. E acabei descobrindo os mangás, que na época eram publicados espelhados e em formato americano pelas editoras gringas, em um momento em que eu começava a me dar conta de que estava lendo os super-heróis no piloto automático. Me libertar deles levou tempo.
Em algum momento acabei desenvolvendo vários conceitos que nada tinham a ver com gente de malha colante, em profusão. Muitas dessas idéias jamais sairiam da gaveta. Mas aquele universo de garotos inventores que remetia às velhas sessões da tarde do passado, de filmes como “Robur o Conquistador” e “Os Primeiros Homens na Lua” jamais saiu por completo da minha mente. Ele só precisava de ordem.
Essa idéia acabou se tornando aquilo que no jargão hollywoodiano é conhecido como alto-conceito e se encaixou direitinho no subgênero de aventura que surgia e que seria conhecido como boy heroes, que consistia efetivamente de colocar um garoto fazendo o papel que cabia a um adulto. Surgiram assim garotos soldados, garotos detetives (os mais perenes até hoje), garotos exploradores… não é preciso dizer que o garoto inventor se juntou a esse bando com facilidade, e o maior sucesso em território americano foi sem dúvida a série de dime novels (revistas baratas com novelas ligeiras; tinham esse nome por custar um dime – ou seja, dez centavos de dólar; na inglaterra, esse tipo de material era conhecido como penny dreadful) Frank Reade, criada por Harry Enton e que, após seu esgotamento de público, foi assumida pelo escritor cubano radicado norte-americano Luis Senarens, que em um dos primeiros casos de reboot de uma franquia em nossa cultura pop, deu um salto de
décadas, introduziu um filho de Reade rigorosamente igual ao pai e ainda criou um título concorrente dentro da editora – o jovem inventor 

