Sobre Expresso! no Evento “Space Blooks”

Posted in Expresso!, Literatura, Mangá, Quadrinhos, steampunk on maio 22nd, 2010 and
Marinetti

Eu sei que tenho demorado muito a atualizar esse blog. Tenho tido bons motivos para isso: estou desenhando e preparando o projeto editorial em que Expresso! estará inserido. Por isso mesmo eu tenho apresentado poucas coisas: entre desenhar uma página ou uma ilustração que eu possa mostrar aqui, tenho dado preferência a produzir páginas. E eu tenho evitado sair mostrando o que faço – porque senão, como é que eu vou surpreender meus leitores quando sair da toca?
Mas esse é um caso especial. Nessa quinta-feira, eu fui um dos convidados para o evento Space Blooks, na simpática livraria Blooks em Botafogo, na mesma galeria do Unibanco Arteplex. O tema seria Steampunk, e eu participaria de uma mesa-redonda com o escritor Gerson Lodi-Ribeiro, autor de ficção científica, responsável pelo contexto ficcional do MMORPG Taikodom, e com um livro novo do gênero na praça (Xochiquetzal – Uma Princesa Asteca entre os Incas, publicado pela editora Draco); e Fausto Fawcett, que é muito mais do que um cantor cercado de louras rebolantes, como deve ter sido a percepção de sua carreira pelo público nos anos noventa. Fausto é uma máquina de reprocessamento de referências culturais – e foi um dos meus ídolos de adolescência, admito. Ainda guardo o vinil do seu primeiro disco com os Robôs Efêmeros, e o considero o trabalho de ficção científica brasileira mais importante dos anos oitenta, sem brincadeira.
Foi uma experiência interessante. Falou-se de muitas coisas – do que é Steampunk, da percepção distópica do gênero nos Estados Unidos, da vindoura antologia de novelas do gênero organizada por Lodi-Ribeiro (que se chamará Vaporpunk e que reunirá autores tanto do Brasil quanto de Portugal)… Fausto apontava o Steampunk como uma resultante da saturação do presente e da busca de múltiplas subculturas, do aproveitamento e absorção de várias épocas em meio a uma pulverização de opções. Confesso que eu tendo a ser desviado, quando estou em multidões, pelas próprias multidões em si – eu presto atenção no que está sendo dito, mas também procuro olhar para as reações das pessoas na platéia às palavras proferidas.
Um dos elementos curiosos mencionados por Lodi-Ribeiro foi justamente a ausência das menções ao colonialismo e a visão profundamente europeizada do Steampunk nos materiais americanos – que provavelmente sentem uma profunda falta de uma realeza em sua história e tendem a glamourizar as ambientações monárquicas. E isso acaba indo contra boa parte da produção mais popular do século XIX e começo do XX, que mostravam aventureiros viajando para a África e América Latina – sem respeitar fronteira nenhuma, bem de acordo com o conceito do Destino Manifesto, que fez estrago e se faz sentir na atitude americana até hoje (acabei citando o Mil Milhas por Hora de Herbert Strang).

Expresso!

Tive oportunidade de falar um pouco sobre minha história. E isso levantou dois pontos em especial que eu gostaria de recordar.
Vivemos em uma sociedade na qual somos enquadrados desde que nascemos; somos ensinados a nos mediocrizar. Eu tomei como ponto de partida, para minha série, um evento literário: o livro Steam Man of the Prairies de Edward S. Ellis (aliás, as revistas juvenis do século passado foram um manancial imenso para Expresso!). Poucas coisas são mais simbólicas do que um garoto anão e corcunda, vivendo na pobreza, construindo por conta própria um robô a vapor para buscar um tesouro.
Claro que Expresso! é antes de mais nada uma história de entretenimento. Não quero ficar passando sermão a ninguém – isso tornaria tudo muito, muito chato. No entanto, proatividade é um conceito muito importante para minha história e não é a toa que eu citei, na “capa” do biombo em que expus algumas páginas, duas citações: uma de Marinetti e outra, no segundo biombo, de Goethe (”… no princípio era a Ação!”). Não porque eu queira realmente trazer respeitabilidade haute-couture para minhas obras. Quem se sustenta não precisa de muletas. Mas eu acho que poucas vezes esse sentimento de iniciativa foi tão bem traduzido em palavras. Eu tive que recordar isso.
Expresso! acaba sendo realmente sobre a iniciativa própria e a força transformadora do indivíduo, a medida em que se trabalha com algum subtom confrontacional. Somos ensinados a nos adequar, e temos personagens que querem reescrever as regras do mundo. E quem ganha com a mediocrização – ou, pior ainda, aqueles para quem a proatividade incomoda porque levanta a bola da sua própria mediocridade por comparação – tende a reagir imediatamente.

Expresso!

Não vou negar que esse é um dos grandes temas da história. No fundo, usamos o passado para falarmos sobre o que acontece no presente. E isso não é muito difícil quando o cenário é o começo do Século XX: essencialmente o mundo como conhecemos começou ali. A aparelhagem começou a se relacionar com a vida do cidadão comum naquele momento. Empresas como a Ford e a General Electric surgiram dentro desse contexto. Lâmpadas, gramofones, rádios de galena… A tecnologia foi levada para dentro de casa. E tecnologia é poder, não esqueçam.
O outro ponto que toquei foi a natureza dos mangás como a linguagem folhetinesca por excelência de nosso tempo – os herdeiros de uma linguagem de literatura de massa que tiveram seu expoente maior na figura de Alexandre Dumas, no século XIX. Os velhos folhetins estabeleceram a fórmula editorial básica de serialização em veículos de massa para posterior compilação no ano de 1836, em jornais como o La Presse e o Le Siècle, introduzindo o conceito de obra aberta na indústria cultural: autores bem-sucedidos como Dumas precisavam da colaboração de diversos assistentes, para manter os prazos apertados exigidos pelos jornais (e ele produzia várias séries em diferentes publicações ao mesmo tempo). Os rumos de suas histórias eram determinados pela reação dos leitores, cujo termômetro eram as cartas enviadas para a redação dos jornais, e a população simplesmente parava o país ao acompanhar os dramas de personagens como Edmond Dantes ou D’Artagnan.
Para os leitores de quadrinhos japoneses: isso não é familiar?
No evento, levei dez páginas para apreciação dos visitantes. Infelizmente, por problemas técnicos de montagem, só pude deixar cinco em circulação. E eu acho que seria imensamente injusto mostrar as páginas – que na verdade são as versões refeitas das primeiras versões de minha história – sem mostrá-las aos meus leitores fiéis. Então eu estou aproveitando e mostrando a vocês as primeiras quatro páginas da história, exibidas no evento para aqueles que as quisessem ver. Quem viu a primeira versão dessas páginas vai ver que muitos quadros foram reaproveitados, mas o fundamental é que o material tenha qualidade para o leitor.
Divirtam-se. :)

Expresso!
Expresso!
Expresso!
Expresso!

Sobre os Personagens

Posted in Cenário, Expresso!, Personagens, Quadrinhos, steampunk on fevereiro 8th, 2010 and
Um Mundo de Jovens Inventores

Bom, desculpe a demora. Eu avisei que realmente começaria de forma errática, e aos poucos, minha velocidade aumentaria. Junte-se a isso a morte do driver do meu antigo scanner, a novela que foi para fazer o scanner novo funcionar (porque levou meses para que a HP lançasse um driver para seus scanners no sistema OSX Leopard Snow), e um monte de problemas pessoais acumulados… enfim, demorei mesmo.
Sobre o que falaria para retornar às atividades e fazê-las engrenar de vez? Bem, achei melhor apresentar o elenco básico da série. Como estou evitando mostrar páginas, fiz esses pequenos desenhos breves e velozes para apresentar um pouco os personagens. Não liguem, prometo trazer algo melhor acabado na próxima vez. Esses foram desenhos um pouco mais rascunhados a lápis, convertidos em arte-final via computador – e aqui quis energia, ao invés de acabamento. Mas como é raro eu colocar meus personagens com tamanha clareza de detalhes no ar, ei-los. ;)
Antes vale a pena fazer alguns comentários. Quando ordenei o universo de Expresso!, minha primeira intenção era fazer o material ser ambientado na Europa. Adriano, na versão do início da década, era um brasileiro em território estrangeiro (na França, mais especificamente). Ele teria como parceiros de aventuras Suzette, a filha da dona de uma pousada que ele ajudou a salvar – algo meio complexo de explicar aqui e também inútil, já que essa linha de trama foi completamente desconsiderada – mas de sua gênese como personagem falarei mais adiante; o conde Gaston de Montépin, que só é conde no papel depois da queda do governo de Luís Napoleão, mas que é um grande empresário e mecenas de Adriano; e Agoro, um gigantesco negro de mais de dois metros de altura, mordomo, guarda-costas e porrador a serviço do conde. Tudo redondinho. Com o tempo, alguns personagens se juntariam ao bando, mas a espinha dorsal da série seriam esses quatro.

A antiga versão

O que fez com que tudo mudasse tanto? Bem, foi um processo que surgiu quando eu decidi aumentar a percepção de Adriano como brasileiro – eu sentia que era apenas um elemento cosmético na história; tanto fazia se ele fosse brasileiro ou francês. Por isso mesmo, ele deveria começar sua jornada aqui antes de ir para a França, e encontrar paulatinamente Suzette, Gaston, etc. Só que a lógica para levá-lo a Europa acabou gerando toda uma história que foi se expandindo, expandindo, e expandindo. Embora por uma questão estrutural de roteiro ele ainda tenha que ir para a França a certa altura do campeonato, a idéia de fazer de nosso país sua base de operações foi crescendo continuamente. E com isso, também foi crescendo um elemento acessório ao texto: o Clube dos Jovens Inventores. Isso tudo e a pesquisa histórica foram determinantes e o que deveria ser a primeira fase da série acabou ditando todo o tom do universo dos personagens.
Os ajustes para realocar personagens fizeram que Gaston perdesse peso e se tornasse praticamente um coadjuvante. Claro, houve como inseri-lo logicamente no novo contexto, e colocar uma função narrativa para o personagem, mas não havia mais como fazê-lo parte do grupo dos protagonistas – ele deixara de acrescentar. E sem Gaston, Agoro também não fazia muito sentido.
E gradualmente a construção de um roteiro fez com que o novo elenco surgisse naturalmente e definisse de vez o time que forma a atual espinha dorsal da série. É curioso pensar o que seria Expresso! se eu soltasse os personagens oito, dez, anos atrás e o que a série é hoje. Mas as criações são assim mesmo – a partir de certo ponto, elas se conduzem sozinhas. E sinceramente, isso é ótimo.

Adriano MonserratADRIANO MONSERRAT: Isso, não “Montserrat” – é Monserrat mesmo, para que eu deixe bem claro que ele NÃO É a versão de uma terra alternativa do personagem de Lauro Corona em Direito de Amar. Na verdade, eu tinha me esquecido do próprio nome desse personagem. Eu me lembrava do Barão de Montserrat da novela, não do galã (galãs nunca são personagens marcantes), e batizei o nome do personagem de Adriano, acreditem, como uma homenagem a um dos meus dois ou três filmes favoritos de todos os tempos, Porco Rosso de Hayao Miyazaki (caso ninguém se lembre, era o nome do hotel aonde se reuniam todos os piratas aéreos). Nem me dei conta de que mentalmente juntava dois mais dois até ser tarde demais na minha cabeça. Posso ainda ter que mudar o sobrenome do personagem se der algum problema, mas por via das dúvidas, tirei o “t” depois do “mon”.
Ah, sobre o personagem… bem, ele é um garoto inventor que foi estudar na França, levado sob permissão dos pais – uma família de coronéis do café da região do Vale do Paraíba (área que cobre parte dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, mas prefiro deixar a localização exata para a imaginação dos leitores). Para a surpresa dos pais, ele voltou como um “engenheiro diferencial” – o que nos termos da história, pode significar qualquer coisa: a palavra de ordem é ciência selvagem, aonde os limites não são claros e qualquer coisa pode sair da cartola. E obviamente ele bate de frente com o lugar aonde vive: um país agrário, aonde ciência é malvista, boa parte das pessoas são ignorantes – e políticos, militares e religiosos estão firmemente unidos para que tudo permaneça assim. Claro que ele tem uma boa dose de conhecimento científico e inventividade – eu diria que ele é parte “detetive científico”, parte personagem de ação, com um quê daquela capacidade de fazer qualquer coisa com poucos recursos que marcou personagens como o bom e velho McGyver. Mas ele tem uma sombra: o fato dele ser filho e herdeiro de um coronelzão de interior é uma marca que pode ser percebida até mesmo quando ele perde a paciência com tudo e com todos. E ele sabe que esse legado é parte do problema que ele tanto precisa enfrentar.
Suzette
SUZANNE “SUZETTE” MONTOLIOU:
É difícil explicar antes de apresentar a personagem propriamente dita, mas sem ela, o Adriano não funciona direito. Quando a criei, ela devia ter uns quatorze, quinze anos – uma moça, em termos da época. Mas hoje, eu a desenho como uma menina mesmo – por um motivo prático: quanto mais jovens, mais curtas as saias, e como essa é uma história aonde os personagens correm e saltam o tempo todo, ficava muito complicado desenhar uma moça feita com saias até os tornozelos em cenas de corrida. Desenhar os personagens mais jovens foi uma solução prática, e reduzir a idade de um foi reduzir a idade de todos. Hoje me alegro por essa decisão; os personagens se tornaram divertidos de desenhar. Curiosamente, ela foi talvez a personagem que menos mudou desde que foi criada: eu costumo dizer brincando que la poderia ser protagonista de seu próprio desenho animado japonês para meninas nos anos 70 – mas foi arremessada em um desenho para garotos aonde eles constróem máquinas enormes e as usam como armas uns contra os outros… e gostou disso. Não gostaria de fazer que ela caísse no clichê nipônico da Tsundere (a garota que rosna, rosna, rosna, mas tanto rosnado esconde uma poça de melado).
Originalmente, ela era uma garota francesa mais “comum”, mas a necessidade de fazer a personagem parte de uma série ambientada essencialmente aqui Brasil a fez ser transformada na filha de uma preceptora francesa, criada em uma grande fazenda no sul da Bahia (por pouco ela não virou filha de uma preceptora alemã, o que era mais comum ainda do que a presença de preceptoras francesas em grandes fazendas, mas a perspectiva de transformá-la numa Susanna ou similar com sobrenome germânico não era uma boa idéia com a lembrança de uma certa srta. Richtoffen na mídia). Como as circunstâncias em que ela se junta ao bando envolvem uma história maior, vou ficar quieto. O que conta é que ela é importante porque Adriano, durante seu período de faculdade, perdeu de vez boa parte de seu traquejo social em meio a universitários ferozes que não iam muito com a cara de um fedelho no ambiente. Ele teve pouco contato com gente de sua idade e hoje tem desconforto em situações sociais simples – isso quando não perde a paciência. Não é um cavalheiro. Por sua vez, o fato de ser filha de quem é faz com que ela saiba como lidar corretamente com as pessoas e apertar o botão de liga e desliga social no momento certo. Ela é a garota que sabe latim o suficiente para acompanhar a missa da igreja, fala francês, toca piano, sabe se comportar, mas dependendo da situação pode muito bem jogar tudo para o alto para se impôr. É a única que pode passar uma descompostura no Adriano sem ouvir uma resposta (muito) malcriada. Oficialmente, é sua amanuense – e realmente ela precisava de uma função mais prática nesse bando.
Carbone
ALDEIDO CARBONE:
Esse surgiu de uma necessidade prática de roteiro – que Adriano tivesse um amigo de sua faixa de idade mais ou menos. Com o contexto do Clube dos Jovens Inventores, ficou fácil: ele é o responsável em avaliar se Adriano é apto a entrar na agremiação – e acaba ficando no país. Para não ficarmos com dois jovens inventores ultra-capazes na história, veio uma mãozinha do background da série: de acordo com as regras do Clube, os filhos de um membro podem herdar sua cadeira caso dêem prosseguimento às pesquisas do pai ou sigam seu legado na ciência. Em miúdos, Carbone, assim como seus quatro outros irmãos, nunca criaram nada de inovador na vida; o seu pai, Diossido Carbone, foi desenvolvedor de tecnologia de foguetes (e acreditem, nessa época há havia interesse sobre o assunto e até a construção dos primeiros túneis de vento), mas não fez nada além disso; só entrou no clube por ter criado seus projéteis antes dos quinze anos. O irmão mais velho de Carbone é o atual presidente do clube e parece mais ligado à política interna da organização do que à ciência em si. Para ele, estar ao lado de Adriano se tornou a chance de fazer alguma coisa – e até crescer no processo. Carbone é italiano, e aprendeu português durante a viagem de navio graças ao método Maledetto Ruy Barbosa de Português para Italianos. ;) ao lado de Adriano, eu o vejo com uma dinâmica parecida com os personagens de fumetti – dentro daquela estrutura de duplas como Tex e Carson, Zagor e Chico, Dylan Dog e Groucho e vários outros: como os dois estão no mesmo métier, um pode falar com o outro sobre o que está fazendo e esperar que ele entenda.
Domingos
DOMINGOS:
Basicamente… é o jagunço do patrãozinho Adriano – que sabe disso e detesta a idéia, mas não há muito o que fazer – ele precisa de um guarda-costas de confiança. Ele é um veterano da revolta federalista no Rio Grande do Sul, na qual lutou ainda bem adolescente, mas isso deixou marcas: ele chegou a lutar pelos dois lados e seu desencanto com ambos o levou a usar um lenço negro, em rejeição a tudo o que viu durante aqueles anos.
Curiosamente esse personagem originalmente era para ser nada mais nada menos do que Plácido de Castro, o homem que libertou o Acre das mãos bolivianas – e na verdade das mãos americanas. Os bolivianos perderam o Acre para Galvez e, incompetentes, precisaram apelar para o Brasil (atrelado graças a um acordo feito para proteger os seringueiros brasileiros que trabalhavam na região) para tirar o sujeito do poder. Mas eles ainda se ressentiam e pretendiam fazer um acordo de Chartered Territory, nos moldes das colônias africanas, entre empresas gringas e seu país. Essencialmente essas empresas passariam a administrar a região e se quisessem, poderiam remover os brasileiros – e colocar o exército de seu país para garantir seus interesses; é assim que o esquema funciona. Os brasileiros e bolivianos que residiam na região se uniram, sob a liderança de Castro, e tomaram o local na marra – acabando por gerar uma intervenção do Brasil que tomou o país dos bolivianos. Claro, sempre vai ter algum palerma tomando as dores dos nossos vizinhos consumidores de coca, mas lembrem-se do precedente: se os bolivianos tivessem vencido, provavelmente teríamos uma Porto Rico – ou pior, um Alasca ou Havaí – em meio à selva amazônica.

Como eu não vou dar muitos detalhes a respeito de um arco que ainda vai acontecer, vou apenas adiantar que a idéia original era pegar um vácuo cronológico: Plácido em 1901 era ainda um dos homens que seguiu Galvez, mas não era o líder que viria a ser. Só que duas coisas me fizeram mudar de planos. A primeira é o fato de eu não ter nenhuma vontade de transformar Expresso! em “O Jovem Indiana Jones”, enfiando personalidades históricas para educar as criancinhas, e tornando os personagens insuportavelmente chatos. A segunda foi que o Plácido da história foi tomando vida própria, se tornando praticamente outro personagem e eu acabei gostando dele. Então o rebatizei, reajustei seu histórico (apesar dele preservar muitas similaridades com o Plácido na biografia, como ter lutado adolescente e mudado de lado em pleno conflito). Também é uma oportunidade de explorar um assunto que a história oficial gosta de minimizar quando não pode varrer por baixo do tapete: o Brasil era um verdadeiro barril de pólvora naquela época. O discurso de “país cordial” é completamente furado. Na verdade, se olharmos todos os conflitos que se passaram no Brasil em toda a nossa história, apenas três dias no calendário não marcam o aniversário de uma ou mais batalhas (uma fonte particularmente preciosa para mim nesse sentido é o Dicionário das Batalhas Brasileiras, de Hernâni Donato, publicado pela Ibrasa). Em miúdos, Domingos é o homem de armas que encontra uma causa para empunhá-las. Ah, sobre a arma enorme em sua mão… vocês não querem que eu entregue tudo, querem?

Bom, agora chega. Vamos atualizar mais regularmente esse blog daqui para a frente, embora ainda não possa falar em periodicidade fixa. ;)

Sobre Expresso!

Posted in Expresso!, Mangá, Quadrinhos, steampunk on janeiro 2nd, 2010 and tagged , , , , ,
Um Mundo de Jovens Inventores
Não sei dizer exatamente quando ou como surgiu o conceito dessa série na minha cabeça, mas tenho certeza que foi por volta dos meus 11, 12 anos. O herói era um garoto inventor que criava, obviamente, máquinas que lhe davam vantagem contra seus inimigos. Eu concebia a história de forma simples: ele viajava com um dirigível, a la Peter Potamus, ao lado de um mecenas conhecido apenas pelo seu título de nobreza (o Conde. Conde de quê? Ah, desde quando um garoto se preocupa com isso?), o seu mordomo Agoro – um negão a la Lothar e um velhote que pilotava o veículo – e cujo nome nem me lembro mais direito. Eles encontravam aventuras ao redor do mundo, em um cenário que olhando bem, não tinha muito foco: os aventureiros viajavam, encontravam ameaças e depois seguiam viagem. Simples assim.
Frank ReadeAcabei deixando de lado as aventuras clássicas de Adriano quando veio a adolescência e os super-heróis – que acabaram me estimulando a pegar no lápis e fazer minhas próprias histórias em definitivo. E por muito tempo pensei que meu destino criativo era fazer super-heróis. Obviamente eu era um adolescente que não sabia nada da vida. Mas acabei sendo salvo: eu estava estudando Desenho de Artes Gráficas no Senai/RJ e passei a ter acesso imediato a duas gibiterias: a Gotham City (que não existe mais, e em que eu passava horas e horas conversando fiado) e a Gibiteria e Bárbaras Magias, que na época permanecia solidamente no edifício Av. Central. E acabei descobrindo os mangás, que na época eram publicados espelhados e em formato americano pelas editoras gringas, em um momento em que eu começava a me dar conta de que estava lendo os super-heróis no piloto automático. Me libertar deles levou tempo.
BrainerdEm algum momento acabei desenvolvendo vários conceitos que nada tinham a ver com gente de malha colante, em profusão. Muitas dessas idéias jamais sairiam da gaveta. Mas aquele universo de garotos inventores que remetia às velhas sessões da tarde do passado, de filmes como “Robur o Conquistador” e “Os Primeiros Homens na Lua” jamais saiu por completo da minha mente. Ele só precisava de ordem.
Eu a encontrei quando ao pesquisar melhor, topei com o tema Edisonade.
Edisonade é um subgênero de aventura infanto-juvenil que surgiu no século XIX através do romance The Steam Man of Prairies, de Edward S. Ellis. Essa história jamais teve continuações oficiais, mas criou um personagem definitivo: Johnny Brainerd. Um jovem inventor de 11 anos, simultaneamente anão e corcunda, que constrói um robô movido a vapor para auxiliá-lo na busca de um tesouro que salvará sua família de problemas financeiros – e não será uma tarefa fácil.
Electric ManEssa idéia acabou se tornando aquilo que no jargão hollywoodiano é conhecido como alto-conceito e se encaixou direitinho no subgênero de aventura que surgia e que seria conhecido como boy heroes, que consistia efetivamente de colocar um garoto fazendo o papel que cabia a um adulto. Surgiram assim garotos soldados, garotos detetives (os mais perenes até hoje), garotos exploradores… não é preciso dizer que o garoto inventor se juntou a esse bando com facilidade, e o maior sucesso em território americano foi sem dúvida a série de dime novels (revistas baratas com novelas ligeiras; tinham esse nome por custar um dime – ou seja, dez centavos de dólar; na inglaterra, esse tipo de material era conhecido como penny dreadful) Frank Reade, criada por Harry Enton e que, após seu esgotamento de público, foi assumida pelo escritor cubano radicado norte-americano Luis Senarens, que em um dos primeiros casos de reboot de uma franquia em nossa cultura pop, deu um salto de Tom Swift and His Aerial Warsdécadas, introduziu um filho de Reade rigorosamente igual ao pai e ainda criou um título concorrente dentro da editora – o jovem inventor Jack Wright (nada a ver com os irmãos Wright, na verdade; ele foi criado em 1891).
A popularidade do gênero cairia com a Primeira Guerra Mundial, muito por causa da ressaca causada pelo conflito, que jogou no lixo as esperanças depositadas sobre a tectnologia; os garotos detetives tomaram sua frente (apesar de um dos últimos garotos inventores a surgir dentro desse contexto, o Tom Swift de Victor Appleton – criado em 1910 – ter sobrevivido à primeira guerra e gerado, como se tornou convenção do gênero, uma linhagem de filhos e netos; sempre que o personagem se esgotava, bastava fazer o pai pendurar as chuteiras, dar um salto de anos e iniciar uma nova série mostrando as aventuras do filho, e por aí vai).
Isso tudo me deu base para construir um universo aonde jovens inventores existem ao redor do globo. Ele foi se detalhando bem ao longo dos anos. Brainerd e Reade serão personagens – ou melhor, o terceiro Frank Reade o será, e Brainerd estará morto (mas sua lembrança é perene neste universo).
Um Mundo de Jovens Inventores
Matérias posteriores vão apresentar um pouco do cenário, mas eu posso dizer claramente: Expresso! será uma série Steampunk, e Steampunk ao meu ver é ficção científica. Não teremos misturas nesse sentido.
Eu apresentei Expresso! pela primeira vez em um projeto de quadrinhos – se bem me lembro em 2004 – conhecido como Ação Total. O projeto não deu em nada por motivos que prefiro não comentar, mas este ano ele veio à tona em papel através do conto “A Música das Esferas”, publicado na antologia Steampunk da editora Tarja. Ele é parte da continuidade da série, mas deixa isso pra depois. ;)
Adriano Monserrat
A série gira em torno de Adriano Monserrat (o “t” removido de “Montserrat” é para deixar claro que, apesar do enorme tributo que temos que prestar à teledramaturgia que definiu a percepção que temos dessa época no Brasil, focinho de porco não é tomada e eu não estou me apropriando de personagens alheios; meu personagem é meu personagem, não um galã de novela na versão adolescente de uma dimensão alternativa), um jovem inventor que no ano de 1901, tem como objetivo ser reconhecido e deixar uma marca no mundo. Para isso, ele pretende se juntar ao Clube dos Jovens Inventores, e claro, no caminho fará vários amigos e inimigos, além de encontrar grandes desafios que o levarão a todos os cantos do país e do mundo.
Eu quero antes de mais nada fazer um grande quadrinho de aventura e ficção científica; se vou conseguir, serão vocês que vão julgar. E aqui no meu blog vocês passarão a acompanhar o desenvolvimento do projeto. No começo ele tenderá a ser um pouco mais errático, mas a medida em que as coisas forem esquentando, as postagens serão mais frequentes. Postarei imagens, falarei sobre o cenário, sobre os personagens, e eventualmente eu farei alguns artigozinhos falando de materiais que serviram de referência e influência preciosa para o material.
E de resto, espero que vocês estejam aqui comigo.
Feliz século novo e bem vindos ao ano de 1901.
Adriano, Carbone e Suzette